O PADRE QUE VOO E OS IRMÃOS QUE QUEREM VOAR

O padre que voou e os irmãos que querem voar.

Ou,

O evangelho dos balões. Este tem muita gente seguindo.

 

A semana que passou foi marcada com mais uma série de informações sobre o caso Isabella. O fato novo nos noticiários foi o desaparecimento do padre Adelir de Carli, ocorrido entre o céu e o mar do Brasil. Das reportagens que vimos - e lamentamos o desaparecimento de qualquer ser humano -  podemos tirar algumas lições para a vida, para a prática de fé e também para a nossa dinâmica de Igreja.

 

1.   O padre queria chamar atenção para um projeto.

 

Tudo indica que o padre queria terminar de construir uma casa de apoio ao caminhoneiro, já que trabalhava com este grupo de pessoas. E teve uma idéia inusitada: voaria em balões, desses usados em festa, e seria mesmo uma festa! Subiria, voaria, pousaria e, quem sabe, arrecadaria. Ficaria também um pouco mais conhecido, quem sabe, famoso...

 

Mil idéias na cabeça...

 

Não sou contra idéias, algumas delas a princípio vistas como “inusitadas”. Mas serei contra idéias ‘sem-pé-nem-cabeça’ e querer que elas andem.

Infelizmente, no nosso meio evangélico, tem muita gente querendo chamar atenção (em alguns casos, diria, chamar atenção até demais!), bolando para a vida e dinâmica de suas igrejas eventos e mais eventos, todos muito coloridos e mirabolescos, contanto que o povo venha ver e se encantar.

Irmãos queridos, tem programações por aí que são verdadeiros balões, ou seja: tem até cor e jeito por fora... mas por dentro não tem nada de concreto! É só mesmo entretenimento, como um balão pode servir de grande entretenimento. Você está querendo chamar atenção? Para quê? Para quem? Para você mesmo? Sim, porque a vaidade humana é fogo...

 

Você tem um projeto para o seu DI? Então, pense bem e com oração submeta-o à Palavra de Deus. Como somos confessionais (se você que me lê é presbiteriano) e cremos que a nossa querida Confissão de Fé de Westminster muito diz sobre o que cremos e como cremos, olhemos também por ali se não estaremos comprometendo a nossa heróica fé, bíblica e reformada. E a Bíblia não chama atenção, no sentido de espalhafato e ‘coisas inusitadas’ para levar Cristo às pessoas. Ela nos incentiva a pregar a Palavra de acordo com todo o desígnio de Deus (At 20.27). Os meios não podem comprometer o fim: pregar todo o desígnio de Deus.

 

Com muito cuidado afirmo duas coisas: 1) Criatividade não é sinônimo de colocar a fé bíblica e histórica em situação capaz de causar o ridículo. Também, 2) a igreja ou departamento de uma igreja que opta por eventos, corre o risco de passar a viver de eventos e/ou para o próximo evento. E advirto: cuidado com a vaidade e com o chamar a atenção para si, para o seu grupo ou até para a sua denominação, que vai se tornando no final, a sua cara personalista... Perceba que a maior parte da palavra “evento”... é VENTO!

 

2.   O padre perdeu o rumo. Ficou todo desorientado;

 

O padre de Carli voou de balões de festa uma vez. E não é que deu certo? E não é que se animou logo para quebrar um recorde?! Infelizmente, tem pastores, líderes e demais professores que parecem querer viver ‘quebrando recordes’! Já ouvi pastor dizer: “meu sonho é fazer algo que nenhum outro pastor fez antes: colocar 5 mil pessoas aqui dentro, me ouvindo!”

Conheço gente que começou humilde, mas logo se esqueceu dos dias dos humildes começos (ver, Zc 4.10). Antes, se deixou levar pelo tempo e pelo modo, ou melhor: modismos... e se foi, conduzido por perigosos ventos do pluralismo, na lufada da pós-modernidade, que tantos estragos tem causado e vem causando em nossos arraias evangélicos tidos como “tradicionais”. Em tempo: sou tradicional no sentido desta palavra, ou seja: procuro preservar uma tradição de culto, de ensino e de ética que aprendi dentro da Igreja Presbiteriana do Brasil, quando a pregação da Palavra aos pecadores e o anúncio para se viver a nova vida em Cristo aprendendo e praticando as Escrituras, bastava. A Bíblia diz para não removermos marcos antigos (Pv 22.28) mas tem vento por aí que já levou para bem longe esses marcos. E o que é pior: o vento do modismo soprou e o pastor ou o líder ainda ‘ajudou’, soprando de seus próprios pulmões, junto.

 

Nas alturas o que se ouviu do padre foi um reconhecimento: “alguém me ajude a operar este GPS...” O que ele de fato disse foi: “estou desorientado e cada vez mais me desorientando!”

O nosso GPS é a Palavra de Deus: Guia Para Salvação. É a Palavra quem diz – claramente – e eu obedeço, e não eu a faço dizer o que eu quero que ela diga. O que da Palavra passar na transmissão da mensagem do evangelho, puro e autêntico, é invencionice de homem que ‘sonha alto’, mas logo se perde: perde-se em si e pelo meio onde foi encher os seus próprios balões.

 

3.   Os ventos levam para qualquer lugar. O Espírito leva a Cristo e à Palavra.

 

Insisto: não precisamos de invencionices ou de idéias de homens para ver se o evangelho avança; se ele ‘sobe no gosto do povo’! Isso porque, quando queremos fazer por nossa força e por nosso espírito o ‘evangelho subir’ no gosto e conceito do povo, ele acaba desabando! Isso porque, as doutrinas da Graça não são pregadas, são escondidas e até maquiadas. E este evangelho não serve.

 

Não há outro evangelho senão aquele que mostra o homem no estado em que se encontra: perdido e culpado, e se Deus, misericordioso que é, não olhar para este homem e o Seu Santo Espírito não o conduzir a Cristo, este homem estará irremediavelmente perdido! E a primeira coisa que o Espírito faz quando o evangelho da Graça é pregado, é convencer o pecador do seu pecado. Também fala ao coração humano de maneira nítida sobre o justo juízo de Deus sobre o condenado e apresenta de maneira irresistível a Justiça que foi realizada na cruz por Cristo.

Assim, este pecador, convencido e arrependido, abandona as trevas e se volta para a Luz, procurando viver agora para produzir frutos: fruto de justiça, de arrependimento (ou seja: uma vida que se arrependeu e demonstra isso através de palavras e atos) e fruto da luz. E um ‘evangelho do balão’ não é capaz de produzir isto, por mais colorido e vistoso que se apresente, ou seja apresentado.

 

 

4- Os vários erros do vigário voador.

 

Segundo especialistas em aviação e balonismo o padre de Carli cometeu vários erros. Olhemos para alguns deles e aprendamos, dentro do nosso contexto de vida e dinâmica de fé e igreja:

 

a)    O padre faltou aula – Você que me lê, tem estudado verdadeiramente as Escrituras Sagradas? Tem se empenhado por manejar bem as sagradas letras? Combina com você a recomendação do apóstolo Paulo: “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade“ (2Tm 2.15)? A sua Escola Bíblica Dominical é verdadeiramente “bíblica”, ou a sigla EBD para você não passa de “Encontro” para “Bater-papo”, “Dominical?” Isso é uma tragédia.

O instrutor de vôo do padre o desligou do curso [1] e disse isso em programa de repercussão nacional na TV, porque o mesmo faltara aulas. Faltara o suficiente para desaboná-lo a tirar os pés do chão de maneira consciente e responsável. Na casa de Deus e com relação à sua mui santa e sábia Palavra, quem falta ao estudo sério da Bíblia e não aprende de maneira coerente, pode tombar feio.

 

b)    Desconsiderou ordens da ANAC – Outro grave erro do padre foi desobedecer. Desobedeceu nitidamente o órgão maior de controle de vôo desta pátria, ligado à Aeronáutica [2] . O Documento da ANAC dizia claramente: “não voe!” Mas o padre passou por cima e desobedeceu. Quis voar com a cara e com a coragem. Achou que sabia o que estava fazendo, e mesmo que o escrito da Aeronáutica dissesse “não”, ele iria seguir insistindo, dizendo “sim”.

     Para muita coisa do que aí está e se vê em muitas igrejas e departamentos de uma igreja, a Palavra de Deus diz “não”, os seus concílios responsáveis, também respaldados pela Palavra de Deus e por uma Confissão de Fé também reafirmam e repercutem este ‘não’, mas líderes ou grupos insistem: “sim”. A desobediência é pecado, irmãos.

 

c)    Pensou que conseguiria, apesar de pessoas experientes mostrarem o contrário – Um piloto experiente em vôos de helicóptero procurou o padre de Carli insistindo com ele para que não levantasse vôo. Mas o padre achou que não haveria problema: “logo, logo ele estaria voando acima da chuva”.

Se você está começando agora no ministério sagrado, cuidado: não escute o seu jovem e inexperiente coração. Escute o conselho dos mais experimentados na luta contra o Mal e também contra o Maligno. Ele, o Maligno, é astuto e sopra cada coisa para o lado da igreja, que se não ouvimos bem a Palavra de Deus, terminamos ouvindo qualquer coisa, até mesmo os sussurros das vozes que só confundem, por mais animadoras e tentadoras que sejam as suas propostas para crescimento rápido e... altos vôos.

 

d)   Optou no fim por um vôo cego - O último contato do padre aconteceu às 19h40, quase sete horas após sua decolagem. Ligou do telefone celular para passar as coordenadas e pedir para que entrassem em contato com as autoridades. Voava à noite, acima das nuvens – que eram muitas e espesas, e sobre um tempo chuvoso na região. Voar à noite. Os mais experientes balonistas afirmam: “por-do-sol, balão recolhido”. Pelo tom da voz (que ouvimos nas reportagens de tv) e pelo clamor às autoridades, o padre na realidade estava reconhecendo o que muita gente em nossos arraiais não quer reconhecer de modo algum: “estou metido em um vôo cego”. Sua opção foi mesmo perigosa. E quanto a você? Não está embarcando no mesmo vôo, na mesma onda? Pare com isso. Desça das nuvens! Pare de se rodear de balões! Volte a enxergar, porque o orgulho do querer subir em vôo solo é capaz de cegar o entendimento. Coloque os seus joelhos no chão, a cabeça no lugar e a sua igreja no rumo certo. O rumo onde e sempre, no final, o nome de Cristo será exaltado, nada de espetacular aos olhos humanos será explorado e pecadores serão reconciliados com Deus, desde cedo e de pequenos, por sua ação responsável, irmão,  pregando todo o evangelho da graça de Deus.

 

Quando eu era criança e freqüentava a Liga Juvenil a minha mãe me ensinou um corinho que dizia:

 

“Senhor, dá tempo pra mim,

ocupar minha vida contigo

senão, eu vou pelo vento

e perco o meu tempo,

caindo em perigo”.

 

Não vá por qualquer vento. “Para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro” (Efésios 4.14).

 

Vá pela segura maneira de ser e agir. E quando o vento e o tempo mudarem, não ouse; não se arrisque. Ancore e deixe mais este modismo passar:

 

“Porque Deus não é injusto para ficar esquecido do vosso trabalho e do amor que evidenciastes para com o seu nome, pois servistes e ainda servis aos santos. ...Desejamos, porém, continue cada um de vós mostrando, até ao fim, a mesma diligência para a plena certeza da esperança; ...Para que não vos torneis indolentes, mas imitadores daqueles que, pela fé e pela longanimidade, herdam as promessas. ...Para que, mediante duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, forte alento tenhamos nós que já corremos para o refúgio, a fim de lançar mão da esperança proposta;  a qual temos por âncora da alma, segura e firme e que penetra além do véu” (Hebreus 6.10-12;18,19)

 

 

 

Rev. Jáder é pastor presbiteriano e atual secretário do trabalho com a Infância IPB

 



[1] Segundo o instrutor de vôo Márcio Lichtnow, que foi seu professor em um curso de parapente (espécie de pára-quedas retangular) em Curitiba, por falta de disciplina e assiduidade, o padre foi "convidado a se retirar" da escola. O instrutor diz que o religioso "achava que era autodidata". "Ele não acatava orientações. Não sabia voar e, mesmo assim, se jogou nessa", disse o piloto, que afirmou ter 15 anos de experiência. - Jornal Folha de São Paulo [on-line] 24/04/2008 - 08h20.

[2] Jornal Zero Hora -  Geral -  23/04/2008

 

 
 
 

Rev. Jáder Borges Filho
Secretário Nacional
do Ministério Infantil IPB.
jader@ipb.org.br










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Rev. Jáder.

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